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Qui, 14 de Dezembro de 2017


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Eco de Um Sorriso
AO LONGO DO RIO CAPIM

    Correspondência com notícias pessoais escritas por Dom Eliseu e enviadas para a Casa Geral dos  Padres Barnabitas.  

                 (carta escrita por Dom Eliseu em Outubro de 1931)

         Enquanto estava visitando, às margens do Rio Capim, comunicaram-me que não muito longe do lugar onde eu me achava, encontrava-se um doente abandonado na maior miséria. Não tinha estrada para chegar lá. Peço uma barca. - “Padre Mestre” (assim o povo costuma chamar o Padre a quem tem a maior estima e que soube conquistar sobre ele uma admiração, seja com a virtude ou com a doutrina), responde-me francamente o barqueiro “eis a barca mas, o doente não verá. - “Por que?”  -”Eh! Padre Mestre”, prosseguiu suspirando; “que quer, a crise é assustadora e a roupa está caríssima! Pense,  por uma dúzia de achas de cedro não se pagam mais do que 5 reais! No entanto, é toda a nossa riqueza”. -”Compreendo-lhe, interrompi,  mas, tentaremos; se não puder receber-me, voltarei”.  Se o tivesse deixado continuar, não teria terminado nunca com suas dolorosas lamentações, este pobre caboclo. Entrei na barca e fomos remando sobre o rio Capim.
Chegando na meta final, o bom homem amarra a montaria em uma árvore caída que nos serve de ponte. Com um pouco de equilíbrio, com um salto, eis-me em terra.
De vez em quando ouço uma voz: por aqui, Padre, por aqui, mas  não aparece uma viva alma. Pobre gente, compreendi agora como eram verdadeiras as palavras do barqueiro. Pobrezinhos! O pano custa, e eles não têm nem mesmo roupa para cobrir o corpo. A mais absoluta miséria em torno de mim ... Sentia o coração sangrar e um nó apertava-me a garganta. Finalmente, eis que sai de um quartinho um homem ajustando o calção, à última moda: curto e rasgado, sem bainha, sem cor predominante, sem forma bem definida; enfim, uma verdadeira coleção de trapos variados e quantos remendos! De camisa nem se fala, nem ao menos a tinha.  Aquele bom homem, que soube depois, era o dono da casa, aproximou-se de mim e pediu mil desculpas, pobrezinho, por ter-me feito esperar, por não poder oferecer-me uma cadeira ou um banquinho qualquer, mas apresenta-me uma coisa bem mais preciosa e bem mais cara a mim: a coroa de seus oito ou nove filhinhos. A mulher não se fez ver. Visto o doente e me entretendo um pouco ... Quanta simplicidade e quanta miséria!  ... Deixo uma boa palavra, a bênção do céu e alguma pílula de quinino; faço lavar a ferida de um rapazinho, passo uma pomada e vou embora pesaroso. Cheguei a uns 50 Km da foz, na Vila principal.
-”E foi recebido, senhor Padre, em todas as casas?”  Pergunta-me incrédulo, o escrivão de polícia que não era nada menos do que a terceira autoridade do lugar. -“Pois bem, eu lhe posso assegurar, senhor padre,  que mais acima não são poucas as famílias que não aceitam em casa pessoas de respeito.  Quando se batem palmas, escondem-se;  às vezes, fogem para a mata, deixando somente um garotinho para dizer que todos estão fora, trabalhando".
Pensava nas roupas, ainda boas, que na Itália, são descartadas. Assim serviriam ainda, e sonhava que algum anjinho me as trouxesse.     Dentro de alguns meses espero visitar toda a região mais alta. Poderei distribuir quinino,  curar alguma ferida - não muito horrível! Oferecer algum remédio para as doenças mais comuns e dar algumas roupas. Poderei?   Dos caros Padres, dos caros benfeitores, espero a resposta. Não se trata de muita coisa.  Estou certo que a resposta feita a minha pergunta, feita com o próprio coração, mais do que a pena, será afirmativa. E portanto, obrigado.
                                                                                                        Padre Eliseu Maria Coroli
                                                                                                         (Missionário barnabita)